terça-feira, 24 de novembro de 2009

João Figueiras Lima - LELÉ

Acadêmicos: Felipe Ferreira, Jaqueline Stiehler, Marina Schefer Gervin e Priscyla Brígido da Silva.




     Nasceu no Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1932. A maior parte das obras de Lelé encontra-se fora do eixo Rio de Janeiro - São Paulo (regiões tradicionalmente abordadas pela crítica e pela historiografia da arquitetura nacional). Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, passou a maior parte da vida em Brasília e em Salvador. É conhecido popularmente como Lelé. Formou-se arquiteto pela Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ).

     Entre os arquitetos da arquitetura moderna do Brasil, Lelé é o arquiteto que leva mais longe as experiências de industrialização de componentes na construção civil - sobretudo em argamassa armada -, mesmo diante das condições precárias do país. Orientado pela dimensão coletiva da arquitetura, trabalha prioritariamente para o poder público em programas de grande alcance social: edifícios residenciais, escolas, hospitais e equipamentos urbanos de saneamento e transporte. Nesse sentido, cria uma alternativa concreta para a prática arquitetônica em projetos públicos num período de exíguas oportunidades de atuação profissional: os anos de ditadura militar e a década de 1980, marcada por sucessivas reduções de investimento.
     Suas obras destacam-se pela combinação entre a exploração da industrialização na construção civil e a criação de componentes pré-fabricados em série, recurso da forma livre, freqüentemente sinuosa, herdada de seu convívio com Oscar Niemeyer (1907).
     O diferencial de Lelé, porém, é o baixo custo e curto prazo. Seus projetos para a construção de edifícios – em particular hospitais – são todos com custos muitos reduzidos, aspecto relevante apenas para um raro grupo de arquitetos que, além de dominarem o ofício de criar e construir valoriza o lado social das obras.
     Seu traço definido e objetivo nos leva a pensar que tem habilidades inatas para a arquitetura, mas ele próprio já declarou em entrevistas: "coisas inesperadas me levaram a fazer o curso".
     Sua atuação na arquitetura hospitalar começou em 1964, depois de sofrer um acidente de carro. Conheceu, então, o médico e colega Aloysio Campos da Paz e pensou em projetar hospitais que dessem maior autonomia ao paciente. Essa idéia evoluiu até, em 1980, ser inaugurado em Brasília o primeiro hospital da rede Sarah, especializado na reabilitação de pessoas com problemas físico-motores. A integração entre arquitetura e medicina é especialmente potencializada nesse tipo de obra, que permite criar espaços alternativos de terapia e cura.
     Lelé trabalhou por muito tempo em projetos públicos arquitetônicos, porém, como seu método construtivo é rápido e de baixo custo, passou a sofrer boicotes. Hoje, o arquiteto só trabalha nos hospitais da rede Sarah.


"Sua principal qualidade é aliar a construção de prédios à formalização do elemento que compõe o próprio edifício. Ele pensa, desde a maca que será utilizada pelo paciente no hospital até na espessura da viga que sustenta o prédio. E ainda produz os materiais envolvidos nos dois processos"
Anália Amorin.




OBRAS

Hospital Sarah Kubitschek – Fortaleza



     Inaugurado em setembro de 2001, o hospital da rede Sarah em Fortaleza possui 61 leitos. Dedica-se especificamente à reabilitação de crianças e adultos, contando com atendimento ambulatorial e unidades de internação. Dispõe de piscinas internas, externas e varandas que favorecem a humanização do tratamento. O nome do hospital foi dado em homenagem à Sarah Kubitschek, primeira dama do Brasil em 1960.

     A preocupação constante com o conforto ambiental e a economia de energia são características de suas obras. As soluções arquitetônicas para esse tipo de projeto estão subordinadas às características climáticas do local. Por isso, a orientação, forma do edifício e as características de seus componentes - geometria e orientação de janelas, aberturas, cobertura e paredes - respondem à direção dos ventos e à posição do sol.

     O hospital foi construído sobre um terreno cuja topografia, natureza do solo e nível do lençol freático favoreceram a execução da obra. Uma grande área arborizada, abundante em espécies locais, ocupa mais de 1/3 do terreno. Um bloco vertical abriga apartamentos e enfermarias.


Ventilação

     O programa foi organizado de maneira a aproveitar os ventos provenientes do sudeste. Da mesma forma, as galerias de ventilação, no subsolo, foram orientadas para captar os ventos dominantes. E os sheds funcionam como sucção do ar quente. O bloco vertical (enfermarias e internação) foi localizado na parte posterior do terreno para não barrar as correntes de ar e permitir, assim, a ventilação natural dos ambientes flexíveis.
     Os ambientes com ar-condicionado estão localizados na parte posterior ou na lateral do edifício, dando assim uma localização mais privilegiada para os ambientes ventilados naturalmente. Para atender aos princípios da ventilação natural foram desenvolvidos dois sistemas, que podem operar simultaneamente: o de convecção e o de ventilação cruzada. No modo por convecção, o ar frio é injetado através das galerias de ventilação do subsolo e extraído pelos sheds, com as aberturas a favor dos ventos dominantes, dando o efeito de sucção.


Sistemas de ventilação.




     No hospital de Fortaleza, a grande cobertura em arco está formada por vigas de metal apoiadas nos pilares periféricos da área de fisioterapia. Lâminas de metal, apoiadas às vigas, permitem a ventilação dos ambientes e funcionam como brises, protegendo o jardim interno da radiação direta do sol e da chuva. A cobertura em arco foi concebida com brises móveis, que deveriam mudar sua inclinação conforme a passagem do sol. Mas essa idéia não foi executada e a inclinação dos brises é fixa.




Fachada sudoeste


Fachada sudeste




Centro de Reabilitação – Rio de Janeiro



     O Centro de Reabilitação da Rede Sarah de Hospitais, está situado na ilha Pombeba, que é na verdade uma península localizada às margens da lagoa de Jacarepaguá (próximo ao Riocentro), com uma ligação pavimentada de 700 metros de extensão com a Avenida Salvador Allende. O terreno tem formato alongado com cerca de 140m de largura por 430m de comprimento.
     A presença da água e a brisa constante são fatores importantes para a definição do clima e também do projeto. O lago com suas águas tranqüilas auxiliam no trabalho de reabilitação através da prática de esportes náuticos, como acontece em Brasília na unidade implantada as margens do lago Paranoá.
     Todas as quatro obras da Rede Sarah no Rio de Janeiro foram concluídas em seis meses, isso porque foram usados componentes industrializados feitos em Salvador e depois transportados para o Rio, tais como: estruturas em aço, argamassa armada, madeiras e plásticos. Nas peças metálicas, de madeira e plástico, foi aplicada uma pintura eletrostática a base de epóxi e poliuretano.
     Assim como nas unidades de Brasília, Salvador e São Luís, neste projeto o arquiteto optou por um plano horizontal, onde todos os ambientes se integram a terraços ajardinados permitindo aos pacientes o banho de sol. Para garantir a incidência controlada do sol, os espaços são protegidos por coberturas onduladas, sheds.
     As aberturas dos sheds estão protegidas por venezianas que impedem a incidência direta do sol nos vidros das esquadrias. Os quatro blocos que constituem o Centro de Reabilitação: administração e ambulatório; atividades esportivas, quadra e garagem de barcos; serviços gerais, almoxarifado, copa e cantina; e os setores de fisioterapia e hidroterapia - são interligados por um eixo comum de circulação. O projeto adotou o uso de ventilação natural, eficiente no combate a infecções hospitalares, evitando ambientes herméticos. As coberturas dispõem de nichos que contêm dutos de insuflação de ar das clarabóias destinadas à iluminação e a ventilação natural.
     Para a execução do projeto foi utilizado fundações diretas, com sapatas contínuas e isoladas. A estrutura dos sheds e coberturas foram constituídas de vigamento metálico em chapa dobrada, apoiado em pilares também metálicos, que vencem vãos de até 12,5 m. O arcabouço das coberturas dos sheds e das abóbadas é formado por treliças metálicas a cada 2,50 m que se apóiam no vigamento duplo.
     O uso do ar-condicionado foi generalizado para os vários setores do Centro de Recuperação, exceto o da hidroterapia, galpão de esportes náuticos e de alguns ambientes do bloco de serviços gerais.
     Foram projetados na área externa: o prédio da portaria, estacionamento, quadra esportiva, piscina e serviços. Foi construído junto à Avenida, um abrigo de ônibus especial adequado a pacientes usuários do sistema de transporte coletivo urbano.


Acesso do centro: à direita, administração-ambulatório; à esquerda, garagem de barcos e quadra coberta.


Implantação na ilha Pombeba: vistas privilegiadas.


1. área de preservação, 2. administração, 3. garagem de barcos, 4. quadra, 5. fisioterapia, 6. hidroterapia, 7. piscina externa, 8. serviço, 9. pátio de serviços, 10. estacionamento, 11. portaria.


Shed, na sala de reabilitação infantil, ilumina e ventila naturalmente.


Parque junto à área de fisioterapia infantil.


Elementos estruturais produzidos no CTRS, segundo a concepção artística de Athos Bulcão.


Espera com divisória de painéis coloridos, também programados por Athos Bulcão.


8 comentários:

arquitetura brasileira V disse...

A arquitetura de Lelé prima pela perfeição em juntar a beleza com a praticidade. A análise de suas obras são uma aula de como integrar o projeto perfeitamente com o local onde foi construído e ao invéz de voltar as costas para a natureza e as condições locais, tira partido destes para criar uma arquitetura atemporal.

arquitetura brasileira V disse...

A arquitetura de Lelé prima pela perfeição em juntar a beleza com a praticidade. A análise de suas obras são uma aula de como integrar o projeto perfeitamente com o local onde foi construído e ao invéz de voltar as costas para a natureza e as condições locais, tira partido destes para criar uma arquitetura atemporal.

Postado por: Michaele C. Chiodini

arquitetura brasileira V disse...

Analise de Bruna Spengler
Hospital Sarah Kubitschek
Nem há o que se criticar desta obra do Arquiteto Lelé, apenas tecer comentários e elogios para o empreendimento.
Primeiro ponto, o arquiteto: acredito que seja um dos mais completos arquitetos do período Moderno. Lelé, não só utilizou as premissas do modernismo em obras faraônicas que demonstrassem poder e prestígio, mas sim, utiliza tais características em obras destinadas ao público, como hospitais, escolas; fazendo com que a Arquitetura Modernista vença barreiras sociais e econômicas.
Segundo ponto, o hospital Sarah Kubitschek de Fortaleza. Trata-se de uma obra de destaque devido seu caráter social, um local para reabilitação de crianças e adultos e por todos os equipamentos oferecidos pelo mesmo: piscinas, locais para convívio e tratamento, entre outras características.
Percebe-se também a preocupação com as condicionantes climáticas do local, e o aproveitamento da energia solar e ventilação natural. Isso ocorre através da orientação, forma do edifício, coberturas...
Enfim, trata-se de um edifício que foi bem planejado, percebe-se que foi pensado em todos os pontos, deficiências, condicionantes...

arquitetura brasileira V disse...

Analise de Bruna Spengler
MMBB – Clínica Odontológica

Esta clínica de odontologia é uma obra do Escritório MMBB que, particularmente, gosto muito. Tanto pelos materiais – concreto e vidro – quanto pela forma de caixote suspenso. Todas estas características resultam em um projeto, que consegue ser, ao mesmo tempo, neutro e imponente. Percebe-se também que foi pensado na insolação, uma vez que utilizaram brises soleil na fachada desfavorável.
Não é possível visualizar as plantas, porém, pelo que é informado, apesar da transparência da obra, o local é bem organizado e distribuído.
Enfim, acredito que os arquitetos souberam utilizar muito bem os materiais e as formas. Também acredito que se trata de uma obra interessante pois, quando a vemos não é possível definir se trata-se de uma residência, consultório.. até porque existem residencias deste mesmo escritório bastante parecidas com esta obra. Gosto deste tipo de característica pois torna o local multifuncional.

arquitetura brasileira V disse...

Centro de Reabilitação – Sarah Rio de Janeiro

Esta obra chama atenção pela sua horizontalidade que possibilita a integração dos ambientes com terraços ajardinados. A utilização de sheds que permitem a circulação de ar e a claridade nos ambientes, é outra característica fundamental e muito bem resolvida pois controlam a incidência solar aos pacientes que precisam um pouco de sol.
A maneira que foi feita a implantação também é muito interessante, pois possui um formato estendido, devido a horizontalidade do edifício, que se integra com a lagoa permitindo assim práticas de esportes náuticos para a reabilitação dos pacientes.

Tarcila M. Volles

Augusto disse...

Hospital Sarah Kubitschek

No Hospital Sarah Kubitschek pode ser notada a importância que o arquiteto João Figueira Lima dá ao conforto ambiental e economia de energia. Com o desenho da edificação para aproveitar da melhor forma possível os ventos e a insolação, os brises na edificação onde estão os leitos e enfermarias, concentrando áreas que necessitam de refrigeração artificial. O projeto acaba tornando-se ecologicamente eficaz pelas estrategias de economia de energia adotadas.

Augusto

arquitetura brasileira V disse...

Poucos arquitetos brasileiros possuem tantas obras saídas de sua prancheta como João Filgueiras Lima. Lelé é atuante em todo o país, participou como protagonista de um dos momentos mais importantes do modernismo brasileiro, o nascimento de Brasília, projetando, construindo e colaborando com outros arquitetos, como Oscar Niemeyer. Ele foi capaz de desenvolver ao longo de sua carreira uma obra única, mesmo no contexto internacional, extremamente ligada a dois aspectos básicos da construção: o clima e a pré-fabricação. O interesse por uma arquitetura industrializada surge desde este momento, quando Lelé vê-se obrigado a construir um sem número de acampamentos e barracões em madeira. Algo que, sem a devida racionalização, tomaria uma eternidade para ficar pronto. Desde o princípio, no entanto, a idéia de fazer arquitetura, mesmo na provisoriedade, acompanhou o ofício do arquiteto. A força das propostas de Lelé, capazes de romper a descontinuidade das políticas públicas, e penetrarem em grande parte de nosso território, mostra que a arquitetura pode, sim, ter sua parte num mundo e num Brasil melhor.

Francieli Gandini

arquitetura brasileira V disse...

Lelé pode se dizer que é um arquiteto moderno completo, pensa na arquitetura, juntamente com o ambiente e o usuário dele.
Em seus projetos da Rede Sarah podemos notar que ele implanta sua obra no terreno de uma forma a aproveitar todos os pontos positivos climáticos do local, como ventilação e iluminação natural e a insolação.
A utilização de sheds, brises, clarabóias para a iluminação natural, entre outros,comprovam que Lelé além de adaptar sua obra ao clima tira dele opções de componentes arquitetônicos para embelezar sua forma, tornando-a bela esteticamente e funcionalmente.
Por serem hospitais geralmente se mantém aquele padrão do branco, de cores claras, já Lelé como podemos notar optou pelo uso do colorido no exterior dos edifícios e também em alguns ambientes internos.
É admirável a intenção que ele tem de proporcionar aos pacientes contato com a natureza, quando não se há vegetação natural por perto ele projeta terraços ajardinados para que o usuário do ambiente tenha contado com a natureza e possa se sentir completo nos espaços que ele projeta.

Cinthya Ávila