sábado, 28 de novembro de 2009

Moderno nos Trópicos

Acadêmica: Michaele Cristine Chiodini

Os Arquitetos:

UNA Arquitetos
www.unaarquitetos.com.br/

O Una Arquitetos, fundado em 1995, é uma associação de quatro arquitetos formados pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, onde concluíram também a dissertação de mestrado. Desde sua formação desenvolve projetos de diversas escalas e programas, como escolas, edifícios residenciais e comerciais, espaços culturais, equipamentos para transporte público e estudos urbanísticos. Em 1997, venceu o concurso nacional para a reabilitação da Agência Central dos Correios. Recebeu, em 2002, o primeiro prêmio no Concurso Público Nacional para o Teatro Laboratório de Artes Cênicas e Corporais da UNICAMP.
O escritório desenvolveu diversos projetos de escolas públicas para a Fundação para o Desenvolvimento da Educação. Em 2005 recebeu o Prêmio Ex-Aequo Jovens Arquitetos pela Escola Estadual em Campinas. O escritório é responsável também pelo projeto de reforma e restauro do Instituto de Arte Contemporânea e Centro Universitário Maria Antônia da USP, premiado na V bienal de Arquitetura de São Paulo. Em 2003 integrou a equipe do arquiteto Paulo Mendes da Rocha no projeto para candidatura de São Paulo a sede das Olimpíadas de 2012.
Durante o ano de 2006 a equipe foi responsável um extenso projeto urbano para a requalificação de uma área de 3.000.000m2 abrangendo dois importantes bairros centrais de São Paulo: os bairros da Mooca e do Ipiranga. O escritório recebeu vários prêmios IAB: pela Escola Estadual em Poá, Casa em Carapicuíba e, em 2006, recebeu o prêmio IAB pela Casa em Curitiba. Atualmente desenvolve seis estações ferroviárias na região metropolitana de São Paulo. O Una expôs em duas edições da Mostra Internacional de Arquitetura de Veneza. Em 2004, no Pavilhão do Brasil, a convite da curadoria nacional. Em 2006 participou da exposição no Pavilhão Arsenalle, selecionado pela curadoria internacional.



O Projeto

Pavilhão COBOGÓ

O Pavilhão Carambó ficou pronto em 2002 e transformou a rotina da fazenda. Entre estudos, conversas, projeto e obra, foram pouco mais de doze meses de trabalho. E de mudanças. Além de indicar novas possibilidades de uso, o projeto fez despertar nas pessoas uma nova percepção do espaço. Uma nova leitura da paisagem, dos costumes e da história - da fazenda e da região.
A montanha
A primeira vez que pisei no Carambó foi em 1979, quando o meu pai Sylvio Iasi Júnior comprou a fazenda. Eu tinha apenas oito anos e nunca me esqueci daquele dia. Ele e meu avô, Sylvio Iasi, caminhavam pelo pasto, olhando para a montanha mais alta do lugar. Foi quando meu pai perguntou:
- O que você acha? Onde é que vamos fazer a casa?
Meu avô coçou a cabeça, sem pressa, e apontou para um grupo de vacas, deitadas no meio do morro: O melhor lugar para construir a casa é onde o gado dorme. A resposta do meu avô reproduzia a cultura matuta. Uma idéia simples e muito bonita. O gado sempre faz a dormida em lugares secos, arejados e, ao mesmo tempo, protegidos. Vaca não dorme no úmido, foge do vento forte e gosta do sol da tarde. Assim, a sabedoria popular se tornou decisiva para a história e para a paisagem do lugar. Tanto a casa quanto o Pavilhão seriam erguidos, anos mais tarde, no meio da montanha mais alta da fazenda. Duas obras na dormida do gado. dorme no úmido, foge do vento forte e gosta do sol da tarde. Assim, a sabedoria popular se tornou decisiva para a história e para a paisagem do lugar. Tanto a casa quanto o Pavilhão seriam erguidos, anos mais tarde, no meio da montanha mais alta da fazenda. Duas obras na dormida do gado.
A região
A Fazenda Carambó fica no município paulista de Vargem, perto da divisa com Minas Gerais. A montanha do Pavilhão faz parte de uma terminação da Serra da Mantiqueira. Estamos a 110 quilômetros de São Paulo e a mil metros de altitude.
A paisagem montanhosa se desdobra por toda a região. Mata verde nos topos e pasto velho nos terrenos inclinados. Já foi terra de café e hoje é área de gado de leite, olarias, turismo e muitas casas de campo. Dois elementos da paisagem foram particularmente importantes para o Pavilhão. Primeiro, o eucalipto, muito cultivado na região. Segundo, as pedras. Elas brotam das montanhas, salpicam o pasto, se espalham pelas baixadas e riachos. Segundo os geólogos é um granito.
O casarão
Logo ao lado da fazenda fica o bairro do Lopo, um vilarejo rural. O agrupamento começou a se formar no século XVI, como parada de bandeirantes, e, mais tarde, no século XIX, serviu de pouso para os tropeiros. O período de comércio e dinheiro alavancou a construção de belas moradas. Casarões com telha caipira, soleiras de pedra, janelões com batentes coloridos. Fachadas típicas da nossa colonização portuguesa. A história do velho Lopo também está ligada à do Pavilhão. Explico: quando o meu pai comprou a fazenda soube que um desses velhos casarões estava sendo demolido. Foi checar. A casa estava mesmo em ruínas, mas ele teve bom olho para salvar algumas maravilhas daquele monte de entulho. Comprou janelas e batentes de peroba, soleiras de granito, vigas de goiabeira, forro, assoalho, telhas e tijolões ainda preservados. Com isso, o casarão destruído foi praticamente reerguido no Carambó. Surgia assim a sede atual da fazenda. Um grande retângulo de paredes brancas e janelas azuis. A primeira construção na dormida do gado.
Os costumes
Com a casa terminada, em 1990, começou uma segunda obra: uma piscina com churrasqueira. A construção, ao lado da casa, não passava de uma cobertura bem simples. Destaque para a estrutura do telhado: seguindo o costume da região, o material usado foi o eucalipto roliço.
A habilidade local também foi valiosa na construção dos muros de arrimo, que contornam toda a área da casa e da piscina. Os empregados da fazenda saíam pelo campo em busca das pedras. Depois, empilhavam uma a uma – no braço. Um trabalho de força, capricho e paciência. Ou “um quebra cabeças de pedra”, como explicou Osvaldo Miranda, mais conhecido como Deca – caseiro e principal construtor dos muros.
Una

O trabalho com Una Arquitetos começou no início de 2001. Cristiane Muniz, Fernando Viégas, Fernanda Barbara e Fábio Valentim já eram velhos amigos da família. Conheciam e freqüentavam o lugar. Meus pais pensavam em remodelar toda a área da piscina. Queriam mais espaço para a churrasqueira, um forno de pizzas, banheiro, sauna e etc. Para baratear os custos, arquitetos e clientes decidiram que o projeto deveria aproveitar ao máximo o material já disponível na fazenda. E mais: tudo deveria ser feito com a mão-de-obra local.
A estrutura
O Pavilhão foi construído na mesma posição da velha churrasqueira. Um retângulo coberto de 135 metros quadrados. A telha caipira é sustentada por uma estrutura de madeira que surpreende pela beleza e simplicidade. A base de tudo é o eucalipto roliço citrodora. Material cultivado na fazenda e comum nas construções da região. Contando com a parceria do arquiteto Marcus Vinicius Barreto Lima, a equipe do Una desenhou, uma a uma, todas as peças da estrutura. Eles calcularam os diâmetros, projetaram os encaixes e indicaram até um método de montagem do telhado. Vale notar que, em geral, vigas, colunas e caibros não se tocam. A ligação entre as madeiras é feita por peças de metal – também desenhadas por eles e confeccionadas pelo próprio pessoal do Carambó. Apesar do traço sofisticado, muitas vezes quando olho pra cima tenho a sensação de estar debaixo daquele telhado caipira da antiga churrasqueira – uma memória muito agradável.

O Pavilhão
O fundo do pavilhão é ocupado por um grande cubo de alvenaria. Completamente solto da estrutura, esse volume abriga a churrasqueira e o forno de pizza. Ainda há espaço para sauna, um banheiro e um pequeno depósito. Pintado de vermelho escuro, o cubo é um dos poucos elementos coloridos do Pavilhão. Na parte central da cobertura fica uma bancada, de tijolo caiado. A peça tem uma cuba de pia e tampo de mármore. Serve como bar e também como mesa de trabalho para churrasqueiros e pizzaiolos.
Na outra ponta, o Pavilhão ultrapassa a linha do arrimo e avança sobre o pasto. O volume coberto parece solto no ar. O piso leva tábuas de ipê, como um deck. Essa parte da construção se apóia num pequeno paralelepípedo de alvenaria, com a mesma cor do cubo. Para quem olha de longe, é uma nova referência na paisagem. O traçado reto do Pavilhão, flutuando sobre o pasto, reforça a sensação de declividade do terreno. Valoriza a velha montanha da fazenda.





Madeira
Prego, martelo e ripas de ipê. O fechamento do pavilhão é outro traço impressionante do projeto. Tudo se baseia em grandes ripados. Alguns fixos, outros móveis. A face interna é revestida com vidro. Surge então um ambiente ao mesmo tempo claro e protegido. As ripas de ipê filtram a luz, barram o sol direto e o vidro segura o vento forte. Quem está dentro do Pavilhão não perde a vista, já que o espaço entre as ripas permite uma boa leitura da paisagem.
As peças de madeira trazem mobilidade ao Pavilhão. Os ripados funcionam como grandes portas, que correm sobre rodinhas. Esse movimento aumenta ou diminui a entrada de luz e de vento, ajudando no controle da temperatura. A frente do Pavilhão também pode ser aberta em direção ao pasto. Ali, duas placas funcionam como portas giratórias. Por tudo isto, o mesmo lugar pode ser aproveitado de várias maneiras: pizza com vinho nas noites frias, ou churrasco com cerveja nos dias de sol.
Os muros
Com o projeto do Pavilhão, os muros de pedra da fazenda deixaram de ser meros arrimos, encostados no barranco. Foi quando os arquitetos lançaram a pergunta: será possível fazer muros altos e retos, sem nenhum tipo de apoio?
Só depois de alguns testes meu pai teve certeza: não só era possível fazer os muros soltos, como eles ficariam lindos. Assim, além de acolher os velhos arrimos do entorno da casa, o projeto do Pavilhão propôs a construção de novos muros. E o mais bonito é que os novos volumes de pedra sugerem uma continuidade, um desdobramento dos antigos. Para quem olha pela primeira vez não é fácil dizer qual parte foi erguida primeiro. Apesar de robustos e pesados, os novos muros não têm função estrutural. Assim como o cubo, ficam soltos do telhado.
O pátio
Os maiores muros do projeto dão forma a um pátio que fica atrás do pavilhão. Um ambiente reservado sugerido pelos arquitetos e totalmente novo para o lugar.
Com dois metros e vinte de altura e duas grandes janelas, as paredes indicam novos pontos de vista para a fazenda. As duas aberturas funcionam como molduras da paisagem, que destacam determinados lugares. Os topos das colinas também ganham destaque sobre o traço quase reto da muralha. Antes, esta vista do “fundo” era praticamente ignorada. O espaço abriga ainda um espelho d’água e um flamboyant. A árvore também fazia parte da natureza local. Assim como as pedras, ela foi transplantada do pasto, diretamente para o pátio.
As piscinas
As duas piscinas cortam a grande área aberta ao lado do Pavilhão. Ambas têm revestimento de vinil azul escuro, confeccionado especialmente para o projeto. As bordas foram feitas com granito apicoado. São duas peças coladas, no formato de L. Com este desenho, o vinil azul só aparece dentro d’água, o que dá a impressão de uma cor infinita – sem linhas ou rejuntes de uma piscina de pastilha.
O terreiro
O piso de tijolos lembra um grande terreiro que ocupa quase todo o espaço do projeto. Um elemento de ligação, de integração entre as partes. Aliás, os tijolos também foram produzidos no Carambó, numa pequena olaria artesanal.
O novo olhar
O Pavilhão mudou profundamente a paisagem e o dia-a-dia da fazenda. Além de sugerir novos programas e usos, o projeto despertou nas pessoas um novo olhar. O Pavilhão renovou as árvores cansadas, as curvas antigas, as matas caladas, o pasto esquecido. Trouxe para todos uma nova percepção de tudo o que sempre esteve, de tudo o que sempre existiu.

A análise:

Com esta obra podemos perceber a preocupação dos autores em desenvolver uma arquitetura - ainda que moderna, mas adequada ao local de inserção. Nada de monumentalismos desnecessários, mas sim apenas a essência do lugar.
A implantação privilegiada e a sensibilidade de criar espaços não apenas de permanência, mas sim de contemplação, criam neste projeto a sensibilidade que todo bom projeto de arquitura deveria ter.

8 comentários:

arquitetura brasileira V disse...

Como a Michaele já comentou, a essência desses projetos se baseia quase que unicamente na preocupação com o entorno e essa transmissão visual do espaço externo com o interno. Acredito que essa preocupação de ligação com o entorno cada dia mais vem se esquecendo nos projeto que encontramos por aí a fora e é algo que deveria ser o princípio fundamental de cada projeto.

Por: Marco

Jaqueline Stiehler disse...

Percebemos a preocupação que os arquitetos tiveram ao fazer o projeto do Pavilhão Cobogó, procurando adaptar o projeto ao terreno e envolvendo a áreas interna com a externa minimizando impactos e criando harmonia com a natureza.
O que mais chama a atenção no projeto é a maneira que os arquitetos trabalharam para proporcionar a entrada de luz e ventilação. Onde a face interna é revestida com vidro. Surge então um ambiente ao mesmo tempo claro e protegido. As ripas de ipê filtram a luz, barram o sol direto e o vidro segura o vento forte. Quem está dentro do Pavilhão não perde a vista, já que o espaço entre as ripas permite uma boa leitura da paisagem.
As peças de madeira trazem mobilidade ao Pavilhão. Os ripados funcionam como grandes portas, que correm sobre rodinhas. Esse movimento aumenta ou diminui a entrada de luz e de vento, ajudando no controle da temperatura.
A implantação é privilegiada plenamente adequada ao local, estes aspectos, criam neste projeto a sensibilidade que todo bom projeto de arquitura deveria ter.

Jaqueline Stiehler

Unknown disse...

Muito interessante a forma como este pavilhão foi elaborado e sua insersão no local. Optar por utilizar o mesmo local e o máximo de materiais já existentes demonstra a preocupação dos profissionais no que diz respeito à reciclagem e reutilização. o resultado foi excelente pois conseguiram criar uma edificação que não compete com o entorno, não causa impacto visual. Parece que faz parte da paisagem. Talvez seja pela utilização dos materiais e mão-de-obra local, por exemplo a madeira, as telhas de barro, o vidro dando transparência e proteção. o sistema com portas de correr de ripas de madeira foi genial, desta forma bloqueia-se a insolação direta, ventos e chuvas fortes sem comprometer a visão do todo. Ou ainda, deixando o pavilhão todo aberto, integrando espaços e pessoas.

wwwguto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Unknown disse...

Pavilhão COBOGÓ

Os arquitetos conseguiram chegar a uma solução excelente para o local. Conseguiram dar conforto e multiplicidade de uso sem perder a caracterização e o contexto do ambiente.
Por isso o tratamento das aberturas foi ponto chave do projeto, tendo seu perímetro coberto por vidro, que protege dos ventos e permite a permeabilidade visual, e complementado com as ripas de ipê que filtram o sol e continuam permitindo certa permeabilidade visual.
O projeto gera conforto para o ambiente e seu exterior continua com um estilo rustico arrojado.

Augusto

Unknown disse...

Percebemos no projeto do Pavilhão Cobogó a preocupação que os arquitetos tiveram em adaptar o projeto no terreno. Sendo assim o resultado foi excelente, pois conseguiram criar uma edificação que não compete com o entorno, não causa impacto visual. Também procuraram envolver áreas interna com externa criando assim harmonia com a natureza.

Marina S. Gervin

Fabricio Pavesi Junior disse...

Percebesse na execução dese projeto a profunda análise e entendimento de seu mentores sobre todo o sitio, assim tornando-os plenamente capazes da implantação de uma arquitetura que se funde com a paisagem.
Esta bem claro na intenção do arquiteto a integração da casa com a paisagem, implantando grandes vitrines, para proteção do vento e intemperes, e aproveitamento da luz natural, não diminuindo a vista da paisagem.
O seu lado ecológico, fica por parte do uso de mão de obra e materiais e locais, como as rochas, madeira e telhas de barro.

Felipe Ferreira disse...

Como vários de nossos colegas já sitaram, o projeto desenvolvido foi totalmente adaptado ao terreno, estudando de todas as formas, interar uma arquitetura num espaço adequado. Como sita Marco em seu comentário, há uma transmissão de visual, que integra mais ainda o projeto no local onde foi inserido, desta forma, os arquitetos conseguiram chegar a uma solução perfeita e resolveram muito bem a questão projetual.